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My Talk With Florence

CRÍTICA
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Nota: 7,1

Mais uma ida ao festival DocLisboa, desta feita a 13ª edição.
Da grande variedade de documentários disponíveis foi escolhido este, tanto pelo horário disponível — escolher quase que aleatoriamente é sempre bom devido ao factor surpresa — como pelo tema que parecia controverso, tal como acabou por se confirmar.
Este documentário gira em torno da entrevista de Florence pelo realizador Paul Poet. O objectivo é denunciar as atrocidades praticadas por Otto Muehl através da história de Florence.
Quem foi Otto Muehl? Esta é uma das questões principais. Caso façam uma pesquisa no Google, vão perceber que a informação disponível acerca deste homem é muito reduzida. Depois de verem este documentário, vão-se questionar acerca de como é possível não haver mais informação sobre esta pessoa — se o podemos chamar de tal.

O documentário é dividido em dois capítulos. No primeiro ficamos a saber muito sobre a vida de Florence até se juntar à seita de Otto. No segundo capítulo ficamos a conhecer a seita e todos os seus vícios.

O primeiro capítulo chama-se “Only to survive matter”.

Inicialmente pensei que se podia tratar de um Mokdocumentary tendo em conta a excentricidade de Florence e o pormenor da boneca. A forma como o realizador e a equipa técnica interagem entre si e com a protagonista também ajudou a que ficasse com essa ideia.
Florence revive cada história que conta parecendo que se encontra no local. É chocante a forma como faz descrições de momentos perturbadores com tanta naturalidade. Consegue passar a ideia de quão problemática era a sua família, de quantos traumas lhe foram infligidos logo na infância. Podemos mesmo dizer que havia ódio entre os pais e os filhos, os quais mesmo assim, tais animais, se mantêm unidos. Metaforicamente falando, é um estilo de síndrome de Estocolmo.
Os temas abordados nesta entrevista, ou conversa, abrangem várias situações problemáticas da vida de Florence, desde a crítica dos hospícios (o clichê, que se percebe ser realidade, dos doentes entrarem para serem curados e, quando conseguem sair, saem pior do que entraram), as drogas, a prostituição, a vida na rua, entre outros. Todo um conjunto de situações extremas que enfrentou sozinha, sem estar acompanhada dos seus filhos. Este estilo de vida pode conduzir à demência ou muito perto disso, sendo muitas vezes o suicídio a solução que parece mais óbvia.
É também feita um pouco de crítica política, mencionando-se por exemplo o comunismo, e falam-se de temas sociais como a imigração. Tal como numa conversa de café (como o realizador mencionou no debate no final da sessão), vamos falando e desenvolvendo temas consoante a conversa nos vais guiando. O realizador é quem está a conversar com Florence mas entre os dois está a câmara. Ele faz-lhe perguntas directas, sem pudor, seguindo a linha de Florence. É exemplo desta naturalidade uma fala que poderia ser considerada racista se estivesse desenquadrada, ou mesmo se fosse apresentada noutro ambiente, como o cinema de massas, por exemplo. Foi algo do género “tinha de ser preto e que ninguém lhe conseguisse lavar a sujidade”.
O enquadramento social da época leva ao tema dos hippies em França no ano de 1968, ambiente propício para a criação de grupos de pessoas que seguem um ideal, um estilo de vida, ou seja, propício à criação de seitas. Tal como mencionado anteriormente, um estilo de vida decrépito, com drogas e miséria, apela a um sentimento de entreajuda e à necessidade de viverem em função de terceiros.
Florence conta os seus primeiros passos na seita, a sua submissão a um poder absoluto, a oferenda da sua vontade e do controlo sobre a sua pessoa.

Entretanto inicia-se o segundo capítulo, “The way into society”.

Obviamente que no início as pessoas são atraídas para estes grupos por se identificarem com a ideia, o conceito que une todos os membros. Neste caso específico, esta é uma seita disfarçada de grupo artístico.
É o apelo à criação que os une, o poderem exprimir-se dentro de um grupo que os entende, onde todos defendem os mesmos ideais. Um dos pontos que poderia ser considerado interessante era o facto de explorarem o sexo de forma natural, quase animal, sem regras e sem compromisso, caso o líder não desvirtuasse o conceito. Toda esta liberdade começa a ficar deturpada à medida que Otto Muehl consegue ter cada vez mais controlo sobre os membros da sua comunidade. São estipuladas regras de cumprimento obrigatório que estreitam cada vez mais a liberdade dos membros da seita.
Florence passa a ser uma sobrevivente dentro da seita e não uma participante. Depois de ser afastada dos seus filhos e de se ver encurralada pelas regras que vão sendo criadas.
Este documentário revela novos perigos destas comunidades fechadas, com áreas próprias. O exemplo de Otto Muehl é perfeito tendo em conta a sua excentricidade, complexidade e o tamanho que atingiu. O que mais destaco do conteúdo deste documentário é o facto de o caso ter sido abafado do conhecimento austríaco visto Otto ser um artista muito conhecido cujas obras faziam parte de grandes fortunas.
É um documentário interessante, com informação de difícil acesso. Apesar de ser um pouco parado e com um registo muito homogéneo, aconselho a todos os interessados neste tipo de documentários e tema.
Realço ainda a curiosidade de este homem ter vindo morrer a Portugal. Depois de ter cumprido pena por pedofilia, veio para o Algarve onde voltou a criar uma comunidade – desta vez muito mais pequena – com os mesmos contornos da sua comuna inicial. É pena o nosso país estar ligado a tal figura.

My Talk With Florence
Ficha Técnica
Título: My Talk With Florence capa-de-my-talk-with-florence
Director: Paul Poet
Elenco: Género: Biografia, Drama, Thriller
País: aústria
Ano: 2015