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Je suis à vous tout de suite

CRÍTICA
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Nota: 6,9

Continuando no registo do cinema francês (após ter escrito a crítica do filme “Qu’est-ce qu’on a fait au Bon Dieu”), mais especificamente nas comédias, vi este filme na 16ª edição da Festa do Cinema Francês, no cinema São Jorge.
O filme não foi escolhido apenas pela sinopse e pelo trailer mas também por se encaixar na minha disponibilidade horária. Menciono este facto apenas para dizer que esta é uma forma de contornar a desilusão, após um filme defraudar as expectativas. Assim, pelo contrário, existe uma forte possibilidade de se ser surpreendido pela positiva e é por isso que prefiro quase sempre não saber muito acerca do que vou ver.
Logo no início do filme aparece o subtítulo “Le Pacte”, o que sugere que o filme estará dividido em capítulos. No entanto, com o decorrer do filme não voltou a aparecer mais nenhum subtítulo. Com base nisto, um amigo meu questionou-se acerca da possibilidade deste filme ter sido feito a partir de uma curta metragem (com o título em questão), tendo em conta que os acontecimentos iniciais, por si só, dariam uma excelente curta. Aqui, temos um conjunto de acontecimentos que se vão desenrolando com base em mal entendidos, os quais culminam numa situação cómica de excelência.
Tentei descobrir na internet informação sobre este assunto mas não encontrei nada. Fica então a questão no ar.
Olhando para o filme como um todo, apesar de ser uma comédia, trata temas sérios.
Começamos por conhecer a família protagonista deste filme e deparamo-nos com o conceito engraçado de “merceeiro social”. Simplificando ao máximo, será uma “boa pessoa crónica” que tem uma mercearia.
Através do exagero de simpatia – digo exagero porque infelizmente, em muitos locais, este tipo de atitude social já é visto quase como um mito – e da ingenuidade do senhor Belkacem (Ramzy Bedia), criticam o oportunismo dos demais e traçam a personalidade desta personagem.
Depois podemos olhar para Hanna (Vimala Pons), que “sofre” da mesma característica do pai mas, no seu caso, este tema é explorado de um ponto de vista mais cru, elevando a intensidade da comédia e expondo mais temas sociais complicados. Hanna tem de gerir os despedimentos de trabalhadores e, através dela, também se explora o tema da liberdade sexual feminina. Estes dois temas podem-se juntar com mestria, tal como a realizadora Baya Kasmi fez, mas é importante não descurar os temas em si.
Sendo que parte deste filme se desenrola num bairro social em França, estamos perante uma comunidade que se poderá equiparar à de uma aldeia. Com base nesta pequena comunidade, podemos extrapolar para um nível macro a abordagem do problema da hegemonia das grandes superfícies – neste caso um supermercado – perante as pequenas – ou seja, a mercearia desta família. Nestas situações, além das dificuldades económicas, lida-se também com a frustração de se competir com empresas maiores, perspectivando-se a perda de um negócio criado como um filho, com amor e dedicação.
Um tema sob o qual nunca me debrucei muito foi a saída dos filhos de casa dos pais. Durante muitos anos as famílias habituam-se a uma rotina e quando cada filho segue a sua vida pessoal, os pais acabam por ficar sozinhos. Sei que é algo óbvio, no entanto é interessante explorar a forma como os pais reagem a esta situação visto que terão de criar uma nova rotina que será mais difícil de gerir caso tenham vivido uma vida exclusivamente focada nos filhos. São os “pais galinha” que sofrem mais nestas situações, não só por não terem os filhos “debaixo da asa” mas por terem de voltar a olhar um para o outro, tal como fizeram no início da relação. Continuando a focar o seio familiar, a relação entre irmãos é sempre um tema interessante pela familiaridade que podemos sentir perante as situações apresentadas, sendo a um nível pessoal ou através de outras relações que conhecemos. Os irmãos são as pessoas com que podemos ser sinceros, não apenas para contar segredos mas também para descarregarmos as nossas frustrações. Assim, podem-se criar laços muito fortes, muitas vezes através de grandes chatices. Neste filme, esta situação é bem explorada.
A vida no gueto não é fácil, especialmente pelas várias (más) opções que estão ao dispor das crianças. A variedade de comportamentos provenientes dos diversos tipos de educações, dadas nos diferentes lares num ambiente multicultural, juntamente com a liberdade das crianças e o convívio na rua, levam a que os miúdos tenham de aprender a defender-se sem a ajuda directa dos pais. Podemos tentar comparar com uma escola mas nesta temos um ambiente controlado por adultos, supostamente. Anteriormente, comparei estes bairros com aldeias e em ambos os casos vemos que as crianças brincam livremente nas ruas, a única diferença é que nas aldeias, regra geral, temos uma cultura comum. Não sendo melhor nem pior, o ambiente do gueto é propício à criação de um instinto de sobrevivência mais apurado, desde muito cedo. Sabendo que as crianças podem ser muito cruéis e que ninguém gosta de ficar de fora, por vezes é preciso adaptarem-se para serem aceites. Realço que estamos a falar da altura da vida em que formamos uma parte importante da nossa personalidade.
A par da educação e das relações sociais, também os traumas têm um papel forte na definição da personalidade das pessoas. Este filme diferencia-se das demais comédias por frisar um tema forte e pesado que é a causa de traumas profundos. Não irei entrar em pormenores para não ser spoiler mas fica aqui a ressalva de um dos pontos mais importantes para a mestria deste filme que segue um rumo nada expectável.
Outro ponto que gostei foi terem fugido ao cliché no que diz respeito à reviravolta da personalidade de uma personagem, ou seja, levam-nos a ter uma opinião sobre uma personagem e depois fazem com que mudemos de opinião. Não seguem apenas o conceito de “o mau até tem coração”, vão um pouco mais longe.
Este filme é uma comédia mas, como tenho vindo a mostrar até ao momento, explora temas que vão além da comédia. A comédia é apenas a forma escolhida para abordar os temas e uma forma de nos entreter. Como a maioria das comédias,esta também tem a parte do drama. Houve uma parte em que pensei que “a parte do drama é secante”. No entanto, o drama intensificou-se e ficou melhor, muito por começar a perceber o caminho do filme e a intenção.
É utilizada a comédia através do ridículo, atingindo também picos mais extremos, focando-se em temas e situações que chocam. Falando em extremos, uma temática que é explorada sem pudor é o radicalismo muçulmano. Em tempos conturbados como os actuais tem um impacto muito mais forte. No final do filme foram feitas perguntas à realizadora neste sentido, mas essa parte deixo para outros conteúdos, em outras plataformas, mais focadas nestas discussões.
Algo que gostei muito foi o humor crescente, isto é, contam a piada, deixam-nos digerir, dizem outra piada e mais uma e, quando ainda estamos a rir, já temos outra situação engraçada. Numa conversa, por exemplo, quando pensamos que já tivemos a punch line, conseguem dar-nos outra ainda mais engraçada. Muito bom! É de realçar que só se conseguem obter este tipo de situações com grandes actores e um guião bem conseguido, como é o caso.
Pelo que percebi, este filme não chegou às salas dos “grandes cinemas”, o que é uma pena porque teria dado a oportunidade a mais pessoas de poderem usufruir de um bom momento de cinema. Apesar deste filme estar em votação para passar nestes cinemas, ganhou o filme “Mune, le gardien de la lune”.

Je suis à vous tout de suite
Ficha Técnica
Título: Je suis à vous tout de suite capa-de-je-suis-a-vous-tout-de-suite
Director: Baya Kasmi
Elenco: Género: Comédia
País: França
Ano: 2015